• Terça-Feira, 31/03/2020
  • Brasília, 19º C

Sobre o céu roseado - De Brasília


Foto: João Campello / OlharBrasília

Lá ia eu mais um dia caminhando pelas ruas da W3 Norte de Brasília, se você nunca esteve lá, não posso te explicar como é a divisão geográfica da minha cidade. O que eu posso de fato te dizer é que ela é uma experiência. Do céu você pode até ver que tem forma de avião. Dizem que ela foi planejada, todavia deve ter sido mais planejada para o caos que para a organização como um todo. Sem mais enrolar, te digo que a W3 Norte tem várias quadras, mas não a chamamos de bairro ou quarteirão, ela é só a W3 Norte, e é assim que todo mundo se localiza.

Eu ia indo dar aula. Ali subindo a quadra 714. No ímpeto da pressa eu acabei chegando muito cedo, como o aluno era aluno recente e eu não o conhecia bem, optei por esperar em uma padaria até que desse o horário certo. Eu carregava uma lousa branca, eu amava usar aquela lousa na aula, e mesmo que desse trabalho eu ia tropeçando com ela o caminho inteiro, mas ia feliz, pois ela faria diferença no momento em que as dúvidas sobre o conteúdo surgissem. 

Passei dois minutos de solitude, não durou muito, a ansiedade estava à flor da pele, sabe como é né? Às vezes nosso ofício é daqueles que afligem e reconstroem o que somos, era assim que eu me sentia naquela nova profissão, uma pessoa em manutenção, até que eu me tornasse o que eu deveria ser. Os dois minutos se foram voando e chegou um senhor. As pessoas a minha volta tinham medo dele, ele andava meio que tropeçando em tudo enquanto resmungava sozinho. Ele chegou de forma sutil e disse: “A arte é das coisas mais lindas, posso ver seu quadro, moça?”. Pela pergunta dele, eu entendi que ele achava que se tratava de uma pintura e não de uma lousa. 

Respirei fundo, sem saber o que viria depois que eu respondesse a pergunta dele, e disse: “Moço, é uma lousa, mas a Arte é tudo”. Daí, depois da resposta veio uma sinopse sobre aquele tal desconhecido que causava medo nas pessoas. “Olha, eu já fui muito estudado, sabia? Eu fiz UnB, e meu filho... Nossa! Ele é muito inteligente, ele é médico. Sabia? Olha, eu tive que parar, perdi o controle, sabe? Mas, ele deu certo. Eu gosto de falar da beleza, a beleza é como a arte, e é tudo. A beleza muda, tá vendo aquela moça, ela é bonita, mas na minha época ninguém se vestia assim, e as roupas mudam, e a estética tá em tudo... Sabia?” 

Eu que antes estava até com medo daquele senhor, comecei a sentir curiosidade por aquele bate-papo desordenado. “Ah, sim... A estética muda mesmo né? De acordo com a geração, nada é o mesmo, tudo muda, o ser humano também se metamorfoseia junto.” Ele soltou uma gargalhada muito desordenada tal qual a seus relatos e jeito de organizar as palavras. “Moça, sabe o amor? O amor também muda, antes os rapazes iam recitar poemas nas casas das moças, elas naqueles vestidos... bem cobertas, com babadinhos, que coisa linda, meu Deus! E elas com aqueles dedinhos fininhos tocando piano, e os frangotes nem podiam respirar direito, focando no poema e no medo de perder o pescoço pro pai da moçoila. Cadê a conquista? Não tem mais, todo mundo... tão tudo sem respeito, agora é baderna! Mas, que saudade da arte, aquela ali no casalzinho”.

Eu fiquei calada por um tempo, minhas palavras rodeavam mais meus pensamentos que meus lábios. Fiquei pensando nas moças e nos rapazes, e em todo o melindre da época, por fim, sorri. “Moço, mas a arte ainda existe, ela só se transformou, ela continua na música que o rapaz envia para conquistar o coração da moça, e por aí vai... Eu vou me indo, tenho que dar aula, agora”. 

“Mas, a moça vai dar aula? Que bonito, mas aí a gente podia ter conversado sobre isso, que pena que não me falou antes. Que mocinha singular, vai com Deus”. Foquei no céu todo rosado que se mesclava a um alaranjado harmônico e aconchegante, aquele céu todinho em um espetáculo açucarado que se punha ao toque da serenidade da noite. Olhei a minha lousa pálida comparei-a ao céu todo poesia. E, a lousa, senhor? A lousa é arte?


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