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Cult Vídeo fecha as portas, após mais de duas décadas de história
A concorrência predatória dos serviços de streaming e on demand ajudam a fechar uma das mais tradicionais locadoras de filmes do DF

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8/1 - Cult Vídeo fecha as portas

 
“Nos vemos por aí!” A despedida coloquial encerra uma publicação no Facebook que avisa: “A Cult Vídeo, que chegou a ter cinco lojas abertas espalhadas pelo Plano Piloto, vai fechar as portas”. O acervo, diferencial do estabelecimento, trouxe, para muitos brasilienses, pela primeira vez, filmes de arte e produções fora do blockbuster, aqueles filmes caça-níqueis de Hollywood. Os títulos serão vendidos em um feirão entre os dias 20 e 31 de janeiro. 
 
 

O foco em clássicos e grandes diretores de cinema ajudou o grupo, inicialmente comandado por cinco irmãos, a sobreviver à pirataria. Os serviços de filme on demand e por streaming, porém, terminaram de aniquilar um mercado que já vivia seus últimos momentos. 

O avanço na tecnologia já havia privado os brasilienses de outro estabelecimento comercial semelhante. A videolocadora Oscarito fechou as portas em 3 de outubro de 2014 (leia Memória). À época, o proprietário da Cult, André Machado, 42 anos, chegou a gastar R$ 5 mil para comprar parte dos títulos oferecidos pela loja concorrente. Foi uma forma de manter coleções unidas e os filmes próximos dos brasilienses. 

Na postagem de encerramento da Cult, clientes deixaram mensagens lamentando e desejando boa sorte. “A melhor locadora de Brasília! Fez meus fins de semana sensacionais ao longo de toda minha infância e adolescência, além de proporcionar também muitos achados para a fase universitária na procura por filmes ligados à arte. Parabéns por nos proporcionar esse espaço inesquecível”, declarou uma internauta. 
 
 

A Cult abriu as portas, pela primeira vez, na 210 Sul, em 17 de março de 1995. Teve lojas no Lago Sul, na QI 9, na 107 Norte, e, na Asa Sul, nas quadras 204, 210 e 215. 

Exceto a última, que começou a funcionar em 2000, todas as outras encerraram as atividades. André Machado sabe a história de cor. “Meu irmão mais velho trabalhava em uma revendedora de filmes. Ele já tinha um apreço grande pelos filmes de arte e aproveitava para criar um acervo pessoal. Compartilhávamos a ideia de montar o estabelecimento até que inauguramos os espaços. Cada irmão tocava uma loja, mas a administração era única”, destaca. 

Juntas, as cinco lojas chegaram a ter mais de 50 mil mídias. A última chegou a ter 15 mil títulos. “O término é natural. Hoje, a procura é pelo streaming. É o encerramento de um ciclo. Vendo os comentários na internet e ouvindo palavras de carinho, sabemos que valeu a pena toda a dedicação. Toda a trabalheira. Eu me casei com uma cliente. Minha irmã, também. Todos ficamos um pouco sentidos. Mas o sofrimento não é necessariamente ruim. Vamos continuar com os cursos de cinema que já oferecemos e terei mais tempo para minha família. Estamos fechando no azul e na hora certa”, conclui André. 

Cineclubes resistem 
Os cineclubes brasilienses, muitos deles inspirados pelos acervos da Cult e outras locadoras do ramo, lamentaram o fim do estabelecimento tradicional da capital. Vitor Luís Curvelo Sarno, coordenador do Cineclube Giló na Guela e um dos diretores da União de Cineclubes do DF e Entorno (UCDF), era um dos clientes da loja. “Quando começamos o cineclube, alugávamos os DVDs na Cult. Ela era uma referência de pesquisa de títulos. O fim é inexorável, mas é uma grande perda. A internet facilitou muito o acesso a filmes. Por outro lado, você perde o contato físico que ampliava as possibilidades de uma pesquisa. Na Cult, você podia pesquisar e acabava encontrando outros títulos. Garimpava como em um sebo ou biblioteca. Na internet, praticamente, você tem que saber o que quer, e ir direto ao assunto”, compara. 

A expectativa de Vitor é que os cursos oferecidos pela Cult ajudem a formar mais cineclubes e, mesmo sem o acervo, o estabelecimento fortaleça a cena audiovisual do DF. “Eles investiram em vários cursos, de edição, roteiro, direção, a medida que o mercado reduzia. Espero que eles façam cursos mais longos para enriquecer o cinema na cidade”, propõe. 

Local de aprendizado 
"Era um ponto de referência, eu usava os filmes para estudar para a faculdade de cinema", José Eduardo Belmonte, cineasta
Cineasta brasiliense e cliente da Cult, José Eduardo Belmonte tenta evitar a nostalgia ao comentar o fim da última locadora do Plano Piloto. Porém, mesmo ressaltando as mudanças naturais no mercado, em decorrência das tecnologias, não consegue fugir das lembranças que a locadora deixará.“Era um ponto de referência, eu usava os filmes para estudar para a faculdade de cinema. Quando já estava dirigindo, eles também me emprestaram diversos títulos para pesquisas. Não era apenas uma locadora. Era um ponto cultural. Tinha muito valor agregado. Mas os tempos mudam e todos estamos sujeitos a essas mudanças. O encerramento é a marca de um tempo. Não dá para ser nostálgico, mas eu lamento”, afirma. 

O funcionário público Eduardo Rocha, 35 anos, é morador de Águas Claras e se deslocava, uma vez por semana, para a Cult Vídeo da 215 Sul, a fim de alugar filmes para assistir com a mulher. “Normalmente, alugamos uns 10 filmes e passamos a semana assistindo. É uma pena que vão fechar. Dia 20, vamos ao feirão. A Cult foi um lugar muito importante para mim. Sempre gostei de cinema e filmes raros, mas era muito difícil achar. Descobri a Cult tardiamente, há um ano e, nesse período, minha percepção do cinema internacional se transformou”, conta. 

Não é apenas a última locadora do Plano. Para Eduardo Rocha, era o prazer de passar o tempo escolhendo cuidadosamente os filmes. “Uma coisa nostálgica. Tinha um clima legal. A gente estava lá e chegavam pessoas a procura de clássicos, ou acompanhadas de crianças, em busca de filmes infantis. É uma convivência, ainda que seja de uma maneira rápida, com pessoas de gostos bem diferentes. Mas entendo que é um comércio difícil de se sustentar hoje em dia. Como é que você compete com a Netflix? Agora, eles (os serviços de streaming), não têm o que a Cult oferecia em clássicos, documentários e coleções de diretores”, lamenta.
 
Memória
A Cult é a última das locadoras emblemáticas do Plano Piloto a fecharem as portas. A Oscarito encerrou o negócio em 3 de outubro de 2014, 22 anos após o início das atividades. O local era referência em filmes de arte e títulos fora do circuito norte-americano. Depois dela, foi a vez de outro estabelecimento tradicional do ramo dar adeus. Em dezembro de 2015, a Loc Vídeo também se despediu dos cinéfilos da capital federal. Esses estabelecimentos tiveram que sobreviver ao crescimento da pirataria e às mudanças tecnológicas que também impuseram gastos. Pioneiro, o estabelecimento foi o primeiro a importar DVDs. À época do encerramento, o proprietário, Fernando Pagani Destro, afirmou ao Correio que “era um fim que vinha se impondo”. A Loc ainda mantém uma loja aberta em Águas Claras. 
 
Programe-se
Os interessados em participar dos cursos de edição de vídeo e outras oficinas cinematográficas do Espaço Cult podem entrar em contato com os organizadores pelos celulares 98137-8116 e 99961-2534. 

Fonte: CorreioBraziliense

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