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Jovens em situação de vulnerabilidade levam alegria ao Hran
Projeto idealizado por cineasta pernambucana visa ressocializar adolescentes marginalizados. Com apresentações musicais e teatrais, jovens levam cultura a espaços públicos e unidades de internação

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Percussão é uma das atividades promovidas pelo projeto
Desde dezembro do ano passado, as pessoas que estão internadas ou chegam ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran) em busca de atendimento médico são surpreendidas com músicas e apresentações teatrais de jovens que conseguiram sair do mundo do crime. Todas as sexta-feiras, um grupo de adolescentes do Projeto Nota 10 se desloca à unidade hospitalar, com o objetivo de humanizar a rotina de quem se encontra no local.
 
 
A iniciativa foi criada pela cineasta Núbia Santana, em 2009. Natural de Pernambuco, ela decidiu mudar a situação de crianças e adolescentes marginalizados, após produzir um documentário mostrando o cotidiano dos jovens do DF e Entorno que viviam em situações de risco, como falta de estrutura familiar, uso de drogas, criminalidade e guerras entre gangues. 
 
Dessa forma, ela deu início ao Projeto Nota 10, que utiliza a arte para ressocializar os jovens nessa situação. São diversas atividades, como oficinas de percussão, projetos audiovisuais, palestras, espetáculos teatrais e musicais. Além disso, Núbia criou, no mesmo ano, o Instituto Cultural e Social Lumiar, com a missão de promover e defender os direitos sociais relativos ao patrimônio cultural brasileiro.
 
De acordo com a cineasta, o nome do projeto foi criado a partir do objetivo central da iniciativa: mudar a vida de jovens em situações de vulnerabilidade. “Comecei o projeto com objetivo de levar aquele jovem 'nota 0' a se tornar 'nota 10'”, explica. Para ela, não há nada como a arte para provocar essa mudança na sociedade. “Ela tem o poder de aproximar, humanizar e dar oportunidades”, afirma.
 
Além de trabalhar com jovens egressos do sistema socioeducativo, o Projeto Nota 10 previne que outros adolescentes se envolvam em atos infracionais. O hoje vice-presidente do Instituto Lumiar, Mateus Dias, 23 anos, é um dos exemplos. No ano de criação do Nota 10, o projeto fez apresentações no colégio em que ele estudava, em Águas Lindas. A partir daí, a sua realidade mudou completamente.
 
“A princípio, eu achei que seria apenas mais um projeto, e que não faria diferença nenhuma na minha vida. Mas, com o tempo, percebi que era diferente. Vi que seria uma oportunidade perfeita para mim, porque eu morava na periferia, em um local que nem a polícia acessava. Eu tinha tudo para me encaminhar para o mundo do crime, mas não quis, por causa da arte. Ela mudou completamente a minha concepção de cultura e o meu jeito como cidadão”, ressalta.
 
Mesmo morando em um local perigoso, Mateus conta que nunca se deixou levar pelo ambiente que pairava nos arredores da sua casa. “Minha escola tinha um histórico ruim, sobretudo por casos de homicídios que aconteceram tanto dentro quanto na frente do colégio. Mas, quando uma pessoa quer se desviar desse caminho, não existe empecilho que possa atrapalhar. Basta ela querer. E assim foi comigo”, afirma.
 
O objetivo de Mateus é mostrar para os jovens que vivem à margem do crime que existe uma saída para essa realidade. “Assim como o projeto me ajudou, eu coloco na minha cabeça que preciso ajudar outras pessoas também, oferecer essa oportunidade que muitos não têm. As pessoas precisam de uma mão amiga, de alguém que forneça incentivo. Só de eu conseguir ajudar outras pessoas, é muito gratificante. Isso não tem preço”, garante.
 
Longe dos crimes
Rodrigo Silva, 35, encontrou no projeto uma forma de voltar a fazer parte da sociedade. Ele já ficou sete anos na prisão, e era líder de gangues no Distrito Federal. Após indas e vindas no mundo do crime, conseguiu dar um basta na situação ao ser indicado para o Projeto Nota 10.

“A Núbia me abraçou. Esse projeto é uma fonte para recuperar muitas crianças e adolescentes. Ele me dá a oportunidade de entrar em contato com os jovens que estão em situação de risco e mostrar para eles que é possível ter uma vida diferente”, conta. Além disso, Rodrigo relata que é procurado por muitos pais que buscam auxílio aos filhos. “Os pais me falam que os filhos preferem falar comigo do que com eles. Quando eles ouvem os relatos de quem passou por essa situação, absorvem melhor.” 
 
Para o diretor-geral do Hran, José Adorno, receber as apresentações voluntárias é uma forma de integrar os pacientes que estão no hospital com a comunidade. “Nós somos uma casa que trata pessoas adoecidas, mas podemos levar humanização para elas. O serviço público precisa de ações voluntárias como essas. Isso é muito bacana, porque mostra a educação das pessoas. Os voluntários disponibilizam um pouco do seu tempo para fazer algo importante para outro ser humano”, enfatiza.
 
A equipe do Nota 10 é formada por 35 integrantes, e mais da metade teve de passar por medidas socioeducativas ou são egressos do sistema prisional. Além do trabalho no Distrito Federal, o projeto ocorre em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Por ano, 80 ações culturais são promovidas em Brasília, que são realizadas em espaços públicos, unidades de internação e escolas públicas. De acordo com Núbia, anualmente, 32 mil pessoas na capital federal têm acesso às exibições do Nota 10. 

Fonte: CorreioBraziliense

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