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Após casos de feminicídio, representantes religiosos falam sobre a figura da mulher
Rafaella Panceri [email protected] Em vertentes religiosas, os temas da igualdade e do machismo vão para dentro da igreja. Em outras, a necessidade é de interpretação correta da Bíblia. Em comum, lamentam que a dignidade humana esteja em xeque nos dias atuais. Líderes religiosos de quatro denominações diferentes, com templos, casas e terreiros localizados no Distrito …

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Rafaella Panceri
[email protected]

Em vertentes religiosas, os temas da igualdade e do machismo vão para dentro da igreja. Em outras, a necessidade é de interpretação correta da Bíblia. Em comum, lamentam que a dignidade humana esteja em xeque nos dias atuais. Líderes religiosos de quatro denominações diferentes, com templos, casas e terreiros localizados no Distrito Federal avaliam o alto índice de feminicídios registrados em 2018 como reflexo da distorção do conceito de amor e do papel do homem e da mulher na sociedade. Para eles, os 19 assassinatos de mulheres ocorridos desde janeiro — três a mais que em todo 2017 — são resultado do distanciamento do ser humano de Deus e de si mesmo.

Para a Igreja Católica, não há discussão sobre igualdade, e sim sobre a essência dos papéis masculino e feminino no mundo. “A visão de que elas devem ser submissas é parcial e incompleta. Ser submissa é aceitar ser amada. As mulheres devem ser submissas e, em contrapartida, os homens devem amá-las como Cristo ama a igreja”, interpreta Laila Sousa, membro da Família Eclesial Gratidão — associação do Setor de Juventude da Arquidiocese de Brasília.

Para os católicos, é inútil adaptar a Bíblia à atualidade. “A verdade objetiva sobre a pessoa humana não muda. Precisamos voltar a ela”, defende.

Amor distorcido

A ocorrência frequente de feminicídios neste ano é explicada pela distorção do conceito de amor. “Está banalizado. As pessoas amam pizza, amam o cachorro, amam o que lhes dá prazer, amam qualquer coisa. Com isso, perde-se a essência de amar, cujo modelo é a doação de Cristo na cruz”, argumenta. “O outro passa a ser um objeto que a pessoa pode descartar, matar e obrigar a dar prazer para si próprio”, afirma Laila Sousa.

Ela conta que o estupro e o feminicídio são assuntos debatidos em encontros e palestras do grupo. “Os temas têm aparecido bastante, são latentes e oportunos, ao lado da crise da paternidade, do ‘homossexualismo’, da contracepção e do divórcio. Esses problemas vêm de um vácuo no coração das pessoas”, explica.

“A vida conjugal e sexual deve ser uma expressão do amor de Cristo com a igreja, mas vivemos uma crise da masculinidade, da feminilidade e da sexualidade em geral”, aponta. “Tentamos mostrar a beleza do matrimônio e evitar os extremos de feminismo e machismo. Muita gente se perde em ensinamentos que dizem que um é totalmente independente do outro. E não é”, pontua.

Mulher no comando

A mãe de santo Adna Santos, conhecida como “Mãe Baiana”, lidera um terreiro de candomblé no Lago Norte e pensa diferente. Na maioria dos terreiros, quem está à frente é mulher. O homem é coadjuvante e atua como uma espécie de guardião do espaço. “Nós, mães de santo, não somos casadas, porque não somos obrigadas a passar por situações de violência ou ter ao lado uma pessoa errada para nós”, explica. Para as religiões de matriz africana, os direitos são iguais para todos. “Há orixás femininas que foram para a guerra”, conta. “Iansã ajudou Ogum a vencer. Imagina se ela não tivesse ido”, ilustra.

Aos fiéis, o candomblé oferece orientação individual, porque não há palestras nem aulas sobre qualquer tema. “Incentivamos os jovens a ouvir os mais velhos, porque a violência está na educação da pessoa. O que ela aprende dentro de casa, na escola e com as companhias tem influência no que fará no futuro”, acredita Mãe Baiana.

Mesmo com a melhor das intenções e frequentes contatos com os orixás por meio do jogo de búzios, sobram casos de mulheres agredidas que procuram socorro nos terreiros. “Estamos acompanhando isso. É muito triste. A sociedade coloca panos quentes e não deixa isso aparecer. Matar e agredir traz uma força espiritual muito negativa”, analisa.

A líder tenta evitar que a situação chegue a esse ponto e garante haver acolhimento no terreiro. “Nosso papel é trazer autonomia às jovens que apanham, que sofrem, e encaminhá-las à Delegacia da Mulher. Muitas não têm coragem de fazer isso, então acabamos ficando no papel de psicóloga. Damos um banho de ervas, conversamos. O mais importante é que elas sigam em frente”, resume.

Igualdade de espírito

Nem homens, nem mulheres — todos são espíritos. Para o espiritismo codificado por Allan Kardec, o que importa é a essência. Sem cargos definidos ou hierarquia religiosa, as casas espíritas tratam os membros com igualdade.

“O espírito não tem manifestação sexual na essência. Podemos vir para a Terra como homens ou mulheres em lugares diferentes do mundo”, expõe o presidente da Federação Espírita do Distrito Federal, Paulo Maia.

Escrito em 1857 por Allan Kardec, “O Livro dos Espíritos” já colocava homens e mulheres em igualdade, como consta na resposta à pergunta 817, que questiona a igualdade de homem e mulher. “Deus não deu a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?”. Também condena a inferiorização da mulher na pergunta seguinte, ao chamar isso de “domínio injusto e cruel que o homem exerceu sobre ela”. E completa: ”A lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher; todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o progresso da civilização, sua escravização marcha com a barbárie”.

O presidente da federação garante que, nas 160 casas espíritas espalhadas pelo DF, a igualdade é debatida. “Temos palestras públicas sobre relacionamento humano, igualdade entre homens e mulheres, família, vida e paz”, enumera. Ainda assim, muitas mulheres buscam abrigo nos locais, após serem agredidas. “Temos uma rede de auxílio mapeada, com hospitais, advogados, assistência social. Vai além da espiritualidade”, define.

Jesus como exemplo contra a opressão

Entre os evangélicos da Igreja Batista Capital (Lago Sul), a discussão sobre machismo e feminismo está em voga. “A nossa igreja aborda o machismo como uma das formas de deturpação da masculinidade bíblica, cujo principal modelo é Jesus. Isso se traduz em comportamentos prejudiciais tanto ao homem quanto à mulher: violência e desvalorização”, informou em nota. “Jesus criticou a opressão feminina e elevou a mulher a uma condição de dignidade e respeito, nem superior, nem inferior ao homem”, definiu a instituição.

Entre os artifícios para combater a cultura machista, a igreja afirma ter um movimento exclusivo de mulheres. “O movimento de homens também se iniciou recentemente. Trazê-los para a discussão e resolução do problema é fundamental para que a transformação seja real. A garantia de um tratamento equânime, de um ambiente familiar de não discriminação e de apoio ao desenvolvimento da mulher, em que haja parceria, respeito e cumplicidade, e não exploração, é o mínimo que nós queremos” ressaltou a igreja.

Os jovens recebem auxílio específico para a faixa etária. “A postura de combate ao machismo deve estar presente em todas as atividades nas quais eles se envolvem. Temos nos preocupado em promover lideranças femininas e masculinas dentro da igreja”.

A instituição diz manter uma postura lúcida diante do problema da violência doméstica. “Não existimos para ser uma comunidade isolada dos problemas sociais, nem temos a ilusão de isso está longe da realidade das famílias que frequentam nossas celebrações. As igrejas como um todo precisam estar mais conscientes do papel de prevenção e educação dos indivíduos e famílias, quebrando ciclos de reprodução de violência enraizados na sociedade”, critica. A organização evangélica afirma destinar verba ao apoio de vítimas.

Ponto de Vista

A religião é fundamental em qualquer espaço, segundo o doutor em ciências sociais e professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) Frederico Tomé. No Brasil, porém, há uma tradição católica acompanhada de uma onda de conservadorismo. “É nocivo para as liberdades individuais e coletivas, porque nesse discurso o papel feminino é desprezado”, critica. “A culpa do pecado recai sobre Eva e, na prática, sobre todas as mulheres”, exemplifica, em referência à Bíblia.

Para o especialista, a religião pode perpetuar a violência e o imaginário de dominação do homem sobre a mulher. Por isso, é importante que as igrejas estejam preparadas para a nova realidade. “No sentido da igualdade entre todos. Há pouco tempo, o feminicídio era defesa da honra. Quem cometesse o crime não teria de pagar com a liberdade. A Lei Maria da Penha é nova. Ainda há a valorização do macho no comando e a impunidade alimenta a mortalidade feminina no Brasil”, argumenta.

Saiba Mais

A Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social contabiliza 7,1 mil ocorrências ligadas a violência doméstica em 2018. O Ligue 180, vinculado à Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, recebeu sete denúncias diárias de moradores do DF no primeiro semestre do ano. Desde janeiro, pelo menos 19 mulheres foram mortas no DF – aumento de 45% nesse tipo de crime, em comparação com o ano passado.

Fonte: JornalDeBrasilia

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